Adiar uma comunicação difícil pode parecer prudência. Em determinadas situações, porém, o silêncio aumenta a incerteza, abre espaço para interpretações e torna mais difícil uma conversa que inevitavelmente precisará acontecer
Empresas gostam de comunicar boas notícias. Um novo contrato, a chegada de um executivo, a expansão dos negócios, um prêmio, um investimento ou o lançamento de um produto encontram rapidamente espaço nos canais institucionais.
As conversas difíceis obedecem a outra dinâmica.
Uma mudança que afetará uma equipe, o atraso de um projeto, a interrupção de um serviço, um problema que atingiu clientes ou uma decisão que provavelmente provocará insatisfação costumam exigir mais tempo, mais cuidado e, muitas vezes, mais coragem.
Cautela é necessária. Nem sempre uma organização dispõe imediatamente de todas as informações para se posicionar. Há situações que envolvem questões jurídicas, negociações em andamento, investigações ou fatos ainda não suficientemente esclarecidos. Esperar, nesses casos, pode ser uma decisão responsável.
O problema aparece quando a prudência serve apenas para adiar uma conversa que a empresa já sabe que precisa ter.
O silêncio não interrompe a comunicação
Imagine uma empresa que percebe que não conseguirá entregar um projeto na data contratada. Internamente, todos já sabem que haverá atraso, mas ninguém quer comunicar o cliente antes de definir o novo cronograma. Os dias passam. O cliente continua trabalhando com a data original e só descobre o problema quando pergunta sobre a entrega.
O atraso já seria uma dificuldade. A falta de informação acrescentou outra.
Algo semelhante acontece quando funcionários percebem uma mudança importante na organização, mas não recebem nenhuma explicação. Movimentações internas, reuniões incomuns ou alterações de rotina começam a ser interpretadas. Na ausência de informação confiável, surgem versões, rumores e conclusões que podem estar muito distantes da realidade.
O silêncio institucional não cria um espaço vazio. As pessoas tentam preenchê-lo com aquilo que conseguem observar, ouvir e deduzir.
Isso não significa que uma empresa precise falar antes de conhecer os fatos. Significa que, em determinadas circunstâncias, comunicar o que já se sabe, explicar o que ainda não se sabe e informar quando haverá uma nova atualização pode ser melhor do que simplesmente desaparecer da conversa.
Esperar todas as respostas pode custar caro
Existe uma expectativa compreensível de que uma organização só deveria se manifestar quando tiver respostas completas. A realidade raramente oferece essa condição.
Uma empresa pode enfrentar uma indisponibilidade em seu sistema sem saber, nas primeiras horas, quanto tempo levará para restabelecê-lo. Ainda assim, seus clientes precisam saber que o problema foi identificado e que está sendo tratado.
Uma companhia pode estar negociando uma mudança que afetará fornecedores e ainda não ter todos os detalhes definidos. Isso não impede necessariamente que aqueles diretamente atingidos sejam informados sobre o que já pode ser compartilhado.
Uma assessoria de imprensa pode receber uma pergunta de um jornalista sobre um assunto sensível antes de a empresa ter concluído sua apuração interna. Ignorar a solicitação até encontrar a resposta perfeita pode ser mais prejudicial do que reconhecer o recebimento, explicar que as informações estão sendo verificadas e estabelecer um prazo realista para o retorno.
Em todos esses exemplos, comunicar não significa improvisar uma resposta. Significa administrar a incerteza com responsabilidade.
A ordem das conversas também importa
Há outro erro que costuma produzir desgaste. A empresa decide comunicar, mas escolhe primeiro o público errado.
Funcionários descobrem uma mudança relevante pelas redes sociais. Um cliente importante recebe pela imprensa a notícia de uma decisão que afetará seu contrato. Um fornecedor de longa data toma conhecimento de uma alteração significativa por meio de um comunicado genérico enviado simultaneamente para dezenas de pessoas.
A informação pode até estar correta. O problema está na maneira como a relação foi considerada.
Planejar uma comunicação difícil também exige pensar em quem precisa saber primeiro, quem será diretamente afetado, quais conversas devem ser individuais e o que pode ser comunicado coletivamente.
Em algumas situações, alguns minutos de antecedência fazem diferença. Não porque determinados públicos devam receber informações privilegiadas, mas porque relações diferentes exigem cuidados diferentes.
Comunicação difícil não precisa ser comunicação defensiva
Empresas frequentemente chegam a essas conversas preocupadas em reduzir danos. Essa preocupação é legítima, mas pode produzir mensagens excessivamente defensivas, burocráticas ou construídas apenas para proteger a organização.
Uma boa comunicação não elimina uma notícia ruim. Também não transforma uma decisão impopular em algo agradável. Seu papel é permitir que as pessoas compreendam o que aconteceu, por que determinada decisão foi tomada, como serão afetadas e o que podem esperar a partir daquele momento.
Se houve um erro, reconhecer aquilo que efetivamente aconteceu costuma ser mais consistente do que procurar palavras que diminuam sua importância. Se existe uma limitação, explicá-la com clareza tende a funcionar melhor do que escondê-la atrás de expressões genéricas. Se ainda não há resposta para determinada pergunta, admitir isso pode ser mais responsável do que preencher a lacuna com uma promessa que talvez não possa ser cumprida.
Clareza não resolve todos os conflitos, mas evita que um problema seja acompanhado pela sensação de que a empresa tentou fugir dele.
Algumas conversas ficam mais difíceis com o tempo
É natural que organizações procurem o melhor momento para comunicar decisões delicadas. Esse cuidado faz parte de uma gestão responsável.
Mas o melhor momento não pode ser confundido com um momento em que a conversa deixará de ser desconfortável.
Há comunicações que continuarão difíceis amanhã, na próxima semana ou no mês seguinte. A diferença é que, enquanto são adiadas, outras pessoas podem tomar decisões baseadas em informações incompletas, criar expectativas que não serão atendidas ou descobrir por terceiros aquilo que deveriam ter ouvido diretamente da organização.
Saber comunicar boas notícias é relativamente simples. A maturidade de uma empresa aparece com muito mais nitidez quando a mensagem é difícil, a resposta ainda não está completa e o público talvez não goste do que vai ouvir.
Nessas horas, comunicação não é encontrar a frase perfeita. É assumir a responsabilidade pela conversa.
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